Detalhe do processo

5053176-28.2022.8.13.0702

Tribunal de Justiça de Minas Gerais · TJMG · Nova perícia · confiança da classificação: alta

Dados do processo

Órgão
5ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Uberlândia
Classe
INTERDIçãO
Termo encontrado
pericia medica
Publicações
1 (histórico completo abaixo)
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Justiça de Primeira Instância Comarca de Uberlândia / 5ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Uberlândia Avenida Rondon Pacheco, 6130, - lado par, Tibery, Uberlândia - MG - CEP: 38405-142 PROCESSO Nº: 5053176-28.2022.8.13.0702 CLASSE: [CÍVEL] INTERDIÇÃO/CURATELA (58) ASSUNTO: [Curatela] AUTOR: BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO CPF: 077.578.196-79 RÉU: NILDA MARIA DE CASTRO CPF: 965.183.836-15 SENTENÇA Vistos etc. I – RELATÓRIO BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO ajuizou ação de interdição com pedido de curatela provisória em face de sua genitora, NILDA MARIA DE CASTRO, alegando, em síntese, que a requerida é portadora de esquizofrenia (CID F20), circunstância que lhe retirou a capacidade de gerir sua pessoa e praticar de forma autônoma os atos da vida civil (ID 9634534113). Asseverou que a parte requerida passou a apresentar grave comprometimento cognitivo, episódios de surtos constantes, alucinações e perda da autonomia para realização de atividades básicas da vida diária, necessitando de auxílio permanente para higiene pessoal, alimentação e administração de sua rotina, encontrando-se incapaz de gerir seus bens e interesses. Declarou que a interditanda foi submetida a múltiplas internações psiquiátricas ao longo da vida e que seu quadro clínico se agravou após o falecimento de seu companheiro em março de 2022, quando ela passou a recusar alimentação, medicação e higiene adequada, além de sofrer surtos que culminaram em um episódio grave no qual ela ateou fogo em seu próprio quarto, necessitando de intervenção do Corpo de Bombeiros e internação psiquiátrica de urgência. Sustentou que a curatela tem por finalidade salvaguardar os interesses de sua genitora, sendo necessária a nomeação de curadora para administração de seu benefício previdenciário de prestação continuada (BPC), cuidados de saúde e demais atos da vida civil. Requereu, liminarmente, a concessão de curatela provisória, indicando a si própria para o exercício do encargo. O Ministério Público opinou favoravelmente à concessão da curatela provisória, opinando pela intimação da requerente para comprovação de renda da interditanda, apresentação de certidões negativas de antecedentes, e sugerindo restrições ao exercício do encargo (ID 9638607126). A curatela provisória foi deferida, nomeando a requerente como curadora provisória da parte requerida, limitada aos atos de natureza patrimonial e negocial, especialmente para levantamento de benefício previdenciário (ID 9651581770). Posteriormente, em inspeção judicial in loco realizada na clínica onde reside a interditanda (Núcleo Social Jesus de Nazaré), procedeu-se à sua entrevista judicial, oportunidade na qual se constatou o seu grave comprometimento cognitivo e impossibilidade de autogestão (ID 10112111851). Decorrido o prazo legal sem impugnação por parte da interditanda, foi-lhe nomeado Curador Especial na pessoa de Defensor Público, o qual ofertou impugnação com quesitos (IDs 10196755465 e 10212453413). Na sequência, foi determinada a realização de perícia médica oficial no ID 10326423369. O laudo pericial judicial foi colacionado ao ID 10514813750. A Defensoria Pública, atuando como Curadora Especial, manifestou ciência do laudo pericial e apresentou manifestação final concordando com a procedência do pedido de curatela definitiva em face das severas limitações cognitivas da interditanda. Acrescentou que diante da inexistência de patrimônio e da modicidade da renda (BPC de um salário mínimo), manifestou-se pela desnecessidade de prestação de contas pela curadora (ID 10515741502). O Ministério Público apresentou parecer final opinando pela procedência do pedido inicial para decretar a interdição parcial de NILDA MARIA DE CASTRO, nomeando-se BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO como curadora definitiva. Registrou que as severas condições mentais da interditanda justificam a extensão dos poderes de representação e que os autos autorizam a dispensa da obrigação de prestar contas (ID 10524603872). A requerente colacionou suas certidões cíveis e criminais negativas no ID 10645122628. Decido. II – FUNDAMENTAÇÃO Cuida-se de Ação de Curatela ajuizada por BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO, objetivando a submissão de sua genitora, NILDA MARIA DE CASTRO, atualmente com 65 (sessenta e cinco) anos de idade, ao regime de curatela, ao argumento de que a requerida é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), encontrando-se incapaz para a prática autônoma dos atos da vida civil. Inicialmente, foi deferido o pedido de curatela provisória, conforme decisão de ID 9651581770. Posteriormente, em inspeção judicial realizada na instituição de saúde na qual a interditanda se encontra residindo, procedeu-se à sua entrevista judicial, mantendo-se a tutela de urgência deferida (ID 10112111851). Dispõe o art. 753 do CPC que: Art. 753. Decorrido o prazo a que se refere o art. 753, o juiz determinará a produção de prova pericial para avaliação da capacidade do interditando para praticar atos da vida civil. A perícia médica judicial concluiu que a interditanda é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), condição psiquiátrica grave, irreversível e de caráter permanente, apresentando comprometimento severo de suas funções cognitivas que impede totalmente a prática autônoma dos atos da vida civil (ID 10514813750). A Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, atuando em favor da requerida, concordou com a concessão da curatela definitiva em face das severas limitações psíquicas constatadas pela perícia médica. Salientou que a assistida não possui bens imóveis e sua renda limita-se ao BPC, pugnando pela dispensa da prestação de contas (ID 10515741502). O Ministério Público apresentou parecer final opinando pela procedência da pretensão autoral, com a nomeação de BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO como curadora definitiva de sua mãe, NILDA MARIA DE CASTRO, opinando pela desnecessidade de prestação de contas anuais tendo em vista a modicidade de rendas e ausência de patrimônio (ID 10524603872). Estando o processo em ordem, não havendo preliminares a serem analisadas, nem nulidades a serem sanadas, passo a análise do mérito. Os institutos da interdição e da submissão dos interditos à curatela destinam-se à proteção daqueles que, nos termos do artigo 1.767 do Código Civil, não apresentam condições mínimas de regência da própria vida e da administração do seu patrimônio. Com efeito, dispõem os artigos 3º e 4º do Código Civil, com novas redações implementadas pela Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) que: Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos. Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; IV - os pródigos. Parágrafo único. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação especial. A nova legislação prevê que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa (art. 6º da Lei nº 13.146/2015). Mas em alguns casos excepcionais, é possível que a pessoa com deficiência seja submetida à curatela nos termos do artigo 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Nesses casos, todavia, a curatela afeta apenas aspectos patrimoniais, mantendo o incapaz no controle dos aspectos existenciais de sua vida, a exemplo do direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, educação, saúde, trabalho, voto, etc. (art. 85 da 13.146/2015). Noutro ponto, o artigo 1.767 do Código Civil, também alterado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, suprimiu as hipóteses antes previstas de aplicação da curatela às pessoas sem discernimento para atos da vida civil, às pessoas com deficiência mental e às pessoas sem completo desenvolvimento mental. Porquanto, a curatela ficou restrita às pessoas que se enquadrem na nova redação dos incisos do referido dispositivo legal, in verbis: “Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela: I - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) II - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) III - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) IV - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) V - os pródigos.”. Neste contexto, com a entrada em vigor do chamado “Estatuto da Pessoa com Deficiência” (Lei 13.146/2015), foi criado um sistema normativo inclusivo, que homenageia o princípio da dignidade da pessoa humana em diversos níveis. A novel legislação retira a pessoa com deficiência da categoria de incapaz, sugerindo o conceito de que ela não deva ser considerada mais tecnicamente incapaz, na medida em que a deficiência não afeta a sua plena capacidade. Dessa forma, o conceito de capacidade civil foi reconstruído e ampliado, com reflexos significativos no instituto da interdição e da curatela, uma vez que estabelece novo paradigma para o conceito de deficiência, consoante artigo 2º, in verbis: “Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.”. Atento a esta evolução do direito, doutrina abalizada, capitaneada pelo civilista NELSON ROSENVALD, define o alcance da aplicabilidade dessa nova definição ao caso concreto, lecionando que: “A incapacidade relativa será materializada alternativamente pelas técnicas da representação e assistência. Em outros termos, a pessoa com deficiência, que pelo Código Civil de 2002 eram consideradas absolutamente incapazes em uma terminologia reducionista, tornam-se relativamente incapazes, a partir da vigência da Lei 13.146/2015” (ROSENVALD, Nelson. A tomada de decisão apoiada – primeiras linhas sobre um novo modelo jurídico promocional da pessoa com deficiência. In: Revista IBDFAM: famílias e sucessões. Belo Horizonte, IBDFAM, 2015, v.10). Nessa toada, vale ressaltar que a interdição de uma pessoa para atos da vida civil é uma medida grave, que deve se cercar de todas as cautelas, devendo vir escorada num juízo pleno de certeza e segurança, sob pena de se retirar aquilo que há de mais valioso na vida de cada um, e de transformar um ser humano, que deveria ser livre, em um prisioneiro da sua própria vida. Portanto, com o advento da Lei nº 13.146/2015, pessoas com deficiência mental ou intelectual deixaram de ser consideradas absolutamente incapazes. Todavia, em situações excepcionais, a pessoa com deficiência mental ou intelectual poderá ser submetida à curatela, no seu interesse exclusivo e não de parentes ou terceiros. Essa curatela, ao contrário da interdição total anterior, deve ser de acordo com o artigo 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência, proporcional às necessidades e circunstâncias de cada caso. Tem natureza, portanto, de medida protetiva e não de interdição de exercício de direitos. Com esta nova mentalidade, a Lei veio efetivar o princípio da dignidade da pessoa humana, direcionando o olhar para o ser com limitação para seus negócios, de forma a visualizá-lo como sujeito de direitos, e não como objeto caracterizado como incapaz, cujo termo de cunho pejorativo que pode ser definido como “impossibilitado, inapto, inepto, inábil”. Atributos estes que dirigidos a uma pessoa, com o mínimo de discernimento, poderá ferir seu caráter, honra e afetar, negativamente, sua personalidade e autoestima. Com efeito, a interdição deve ser manejada com cautela, de modo a não privar de capacidade própria de usufruir das faculdades mentais e de capacidade de compreensão e expressão da vontade, tendo-se o cuidado para aferir com a maior precisão possível se, havendo incapacidade, esta é total ou parcial, pois este é o critério determinante para a interdição. Não havendo incapacidade, a questão se resolve com a simples nomeação de curador, preservando os direitos da pessoa quanto ao exercício de direitos e exteriorização de sua vontade na realização de atos que não envolva capacidade intelectiva de discernimento, como por exemplo, os atos de disposição de bens patrimoniais de grande monta. Partindo dessas primícias, a decretação da interdição impõe, obrigatoriamente, a demonstração da existência de uma das hipóteses previstas no referido art. 1.767 do Código Civil. In casu, o conjunto probatório produzido, especialmente o laudo pericial judicial, demonstra que NILDA MARIA DE CASTRO é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), de caráter irreversível e permanente, apresentando limitações psíquicas que comprometem severamente seu discernimento para o exercício autônomo dos atos da vida civil. Ademais, os elementos constantes dos autos demonstram que BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO já exerce, de fato, os cuidados necessários à interditanda, comprovando sua idoneidade civil e criminal por meio das certidões negativas colacionadas (ID 10645122628). Dessa forma, embora a legislação vigente afaste a incapacidade absoluta da pessoa com deficiência, mostra-se necessária, no presente caso, a submissão da requerida ao regime de curatela, em caráter protetivo, observados os limites legais pertinentes. Assim, entendo que o conjunto probatório trazido aos autos é mais do que suficiente para demonstrar a incapacidade da interditanda para os atos da vida civil. Acontece que, a partir da entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência, o interditando não pode mais ser considerado absolutamente incapaz, mas sim relativamente incapaz, nos termos da nova redação do artigo 4º, inciso III e artigo 1.767, inciso I, ambos do Código Civil. Neste diapasão, a interditanda deve ser submetida ao regime de curatela, privilegiando, assim, o princípio da dignidade da pessoa humana, de forma a restringir direitos do interdito somente naquilo que for rigorosamente essencial. Logo, a curatela deve se restringir a atos de conteúdo patrimonial ou econômico, desaparecendo, portando, a figura da interdição completa e do curador com poderes ilimitados, cabendo ao Juiz estabelecer os seus limites e extensão, segundo o estado e o desenvolvimento mental do interdito, considerando suas características pessoais, com observância de suas potencialidades, habilidades, vontades e preferências, consoante disposição do art. 755, incisos I e II, do CPC. Com efeito, atento a essas peculiaridades, o pedido deve ser julgado procedente, para reconhecer a incapacidade civil da interditanda NILDA MARIA DE CASTRO, nomeando-lhe como curadora a parte requerente BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO, fixando a extensão da curatela na forma do art. 755, I, do CPC, restrita à prática de atos de conteúdo patrimonial e negocial, bem como ao gerenciamento de seu tratamento de saúde e sua representação civil. III – DISPOSITIVO Ante o exposto, RATIFICO a liminar concedida na decisão acostada ao ID 9651581770 e JULGO PROCEDENTE O PEDIDO INICIAL, com resolução do mérito, nos termos do art. 487, inc. I, do CPC; para decretar a interdição parcial de NILDA MARIA DE CASTRO, declarando-a relativamente incapaz de exercer pessoalmente os atos da vida civil, na forma do artigo 4º, inciso III e artigo 1.767, inciso I, c/c o artigo 1.775, todos do Código Civil; mantendo-se incólumes os seus demais direitos existenciais compatíveis com seu estado de saúde. Em consequência, NOMEIO a parte requerente BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO para exercer o encargo de curadora de sua genitora NILDA MARIA DE CASTRO, que deverá representá-la nos atos que importem na prática de atos de conteúdo patrimonial e negocial, consistentes na administração de bens e valores, celebração de contratos, atuação junto à Previdência Social e quaisquer outros órgãos, podendo requerer e movimentar qualquer benefício (especialmente o Benefício de Prestação Continuada - BPC), além do gerenciamento de seu tratamento de saúde e de sua representação civil. A curadora deverá assinar o respectivo Termo de Compromisso no prazo de 05 (cinco) dias, para bem e fielmente cumprir o encargo, prestando contas de sua administração, na forma do artigo 1.774 do Código Civil, a qual será anual, conforme determina o art. 84, §4º, da Lei nº 13.146/2015. Sem custas, se a parte requerente estiver sob o pálio da justiça gratuita. EXPEÇAM-SE o mandado e o edital, para fins do art. 755, §3º, do CPC. O mandado deverá ser registrado em livro próprio, no Cartório de Registro Civil da sede da Comarca (art. 89 c/c art. 92, da Lei 6.015/73), competindo ao Oficial providenciar as devidas anotações ou comunicações (art. 106 da Lei 6.015/73). INTIME-SE a curadora para providenciar o registro da interdição, no prazo de oito dias, prestando o compromisso em seguida, no prazo de 05 (cinco) dias. CIENTIFIQUE-SE a curadora de que a alienação de bens da curatelada, caso haja, só poderá se dar mediante autorização judicial. Transitada em julgado, tome-se o compromisso e lavrem-se o termo de compromisso e interdição. Providenciado o que foi determinado, independente de nova conclusão, vista ao Ministério Público. Nada requerido arquivem-se com baixa no sistema. Publique-se. Registre-se. Intime-se. Uberlândia, data da assinatura eletrônica. MARCIO JOSE TRICOTTI Juiz de Direito 5ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Uberlândia
Trecho da publicação mais recente (20/07/2026) onde o termo "pericia medica" foi detectado.

Partes

Autor BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO

Andamento identificado

Só etapas com sinal real detectado no texto — sem inventar rito que o sistema não consegue verificar.

  • Publicação localizada pelo radar20/07/2026
  • Despacho saneador identificado
  • Perícia deferida/designada20/07/2026
  • Perícia indireta (documental)
  • Data da perícia marcada
  • Perícia realizada / laudo juntado

Advogados envolvidos

Canal de contato prioritário: convencer o advogado costuma ser o caminho mais direto até a parte.

VALLESKA TAYANE FARIA FELIPE

OAB: 138465/MG

TAINARA JUSTINO ANDRADE

OAB: 147262/MG
Este processo não está marcado como quente — a investigação de contato (Fase 2) só roda sob demanda, pra não gastar tempo/custo em processos de baixa relevância. Marque como quente acima pra abrir o dossiê.

Histórico de publicações (1)

20/07/2026Nova perícia alta

Intimação · termo: "pericia medica"

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Justiça de Primeira Instância Comarca de Uberlândia / 5ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Uberlândia Avenida Rondon Pacheco, 6130, - lado par, Tibery, Uberlândia - MG - CEP: 38405-142 PROCESSO Nº: 5053176-28.2022.8.13.0702 CLASSE: [CÍVEL] INTERDIÇÃO/CURATELA (58) ASSUNTO: [Curatela] AUTOR: BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO CPF: 077.578.196-79 RÉU: NILDA MARIA DE CASTRO CPF: 965.183.836-15 SENTENÇA Vistos etc. I – RELATÓRIO BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO ajuizou ação de interdição com pedido de curatela provisória em face de sua genitora, NILDA MARIA DE CASTRO, alegando, em síntese, que a requerida é portadora de esquizofrenia (CID F20), circunstância que lhe retirou a capacidade de gerir sua pessoa e praticar de forma autônoma os atos da vida civil (ID 9634534113). Asseverou que a parte requerida passou a apresentar grave comprometimento cognitivo, episódios de surtos constantes, alucinações e perda da autonomia para realização de atividades básicas da vida diária, necessitando de auxílio permanente para higiene pessoal, alimentação e administração de sua rotina, encontrando-se incapaz de gerir seus bens e interesses. Declarou que a interditanda foi submetida a múltiplas internações psiquiátricas ao longo da vida e que seu quadro clínico se agravou após o falecimento de seu companheiro em março de 2022, quando ela passou a recusar alimentação, medicação e higiene adequada, além de sofrer surtos que culminaram em um episódio grave no qual ela ateou fogo em seu próprio quarto, necessitando de intervenção do Corpo de Bombeiros e internação psiquiátrica de urgência. Sustentou que a curatela tem por finalidade salvaguardar os interesses de sua genitora, sendo necessária a nomeação de curadora para administração de seu benefício previdenciário de prestação continuada (BPC), cuidados de saúde e demais atos da vida civil. Requereu, liminarmente, a concessão de curatela provisória, indicando a si própria para o exercício do encargo. O Ministério Público opinou favoravelmente à concessão da curatela provisória, opinando pela intimação da requerente para comprovação de renda da interditanda, apresentação de certidões negativas de antecedentes, e sugerindo restrições ao exercício do encargo (ID 9638607126). A curatela provisória foi deferida, nomeando a requerente como curadora provisória da parte requerida, limitada aos atos de natureza patrimonial e negocial, especialmente para levantamento de benefício previdenciário (ID 9651581770). Posteriormente, em inspeção judicial in loco realizada na clínica onde reside a interditanda (Núcleo Social Jesus de Nazaré), procedeu-se à sua entrevista judicial, oportunidade na qual se constatou o seu grave comprometimento cognitivo e impossibilidade de autogestão (ID 10112111851). Decorrido o prazo legal sem impugnação por parte da interditanda, foi-lhe nomeado Curador Especial na pessoa de Defensor Público, o qual ofertou impugnação com quesitos (IDs 10196755465 e 10212453413). Na sequência, foi determinada a realização de perícia médica oficial no ID 10326423369. O laudo pericial judicial foi colacionado ao ID 10514813750. A Defensoria Pública, atuando como Curadora Especial, manifestou ciência do laudo pericial e apresentou manifestação final concordando com a procedência do pedido de curatela definitiva em face das severas limitações cognitivas da interditanda. Acrescentou que diante da inexistência de patrimônio e da modicidade da renda (BPC de um salário mínimo), manifestou-se pela desnecessidade de prestação de contas pela curadora (ID 10515741502). O Ministério Público apresentou parecer final opinando pela procedência do pedido inicial para decretar a interdição parcial de NILDA MARIA DE CASTRO, nomeando-se BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO como curadora definitiva. Registrou que as severas condições mentais da interditanda justificam a extensão dos poderes de representação e que os autos autorizam a dispensa da obrigação de prestar contas (ID 10524603872). A requerente colacionou suas certidões cíveis e criminais negativas no ID 10645122628. Decido. II – FUNDAMENTAÇÃO Cuida-se de Ação de Curatela ajuizada por BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO, objetivando a submissão de sua genitora, NILDA MARIA DE CASTRO, atualmente com 65 (sessenta e cinco) anos de idade, ao regime de curatela, ao argumento de que a requerida é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), encontrando-se incapaz para a prática autônoma dos atos da vida civil. Inicialmente, foi deferido o pedido de curatela provisória, conforme decisão de ID 9651581770. Posteriormente, em inspeção judicial realizada na instituição de saúde na qual a interditanda se encontra residindo, procedeu-se à sua entrevista judicial, mantendo-se a tutela de urgência deferida (ID 10112111851). Dispõe o art. 753 do CPC que: Art. 753. Decorrido o prazo a que se refere o art. 753, o juiz determinará a produção de prova pericial para avaliação da capacidade do interditando para praticar atos da vida civil. A perícia médica judicial concluiu que a interditanda é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), condição psiquiátrica grave, irreversível e de caráter permanente, apresentando comprometimento severo de suas funções cognitivas que impede totalmente a prática autônoma dos atos da vida civil (ID 10514813750). A Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, atuando em favor da requerida, concordou com a concessão da curatela definitiva em face das severas limitações psíquicas constatadas pela perícia médica. Salientou que a assistida não possui bens imóveis e sua renda limita-se ao BPC, pugnando pela dispensa da prestação de contas (ID 10515741502). O Ministério Público apresentou parecer final opinando pela procedência da pretensão autoral, com a nomeação de BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO como curadora definitiva de sua mãe, NILDA MARIA DE CASTRO, opinando pela desnecessidade de prestação de contas anuais tendo em vista a modicidade de rendas e ausência de patrimônio (ID 10524603872). Estando o processo em ordem, não havendo preliminares a serem analisadas, nem nulidades a serem sanadas, passo a análise do mérito. Os institutos da interdição e da submissão dos interditos à curatela destinam-se à proteção daqueles que, nos termos do artigo 1.767 do Código Civil, não apresentam condições mínimas de regência da própria vida e da administração do seu patrimônio. Com efeito, dispõem os artigos 3º e 4º do Código Civil, com novas redações implementadas pela Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) que: Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 (dezesseis) anos. Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; IV - os pródigos. Parágrafo único. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação especial. A nova legislação prevê que a deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa (art. 6º da Lei nº 13.146/2015). Mas em alguns casos excepcionais, é possível que a pessoa com deficiência seja submetida à curatela nos termos do artigo 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência. Nesses casos, todavia, a curatela afeta apenas aspectos patrimoniais, mantendo o incapaz no controle dos aspectos existenciais de sua vida, a exemplo do direito ao próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, educação, saúde, trabalho, voto, etc. (art. 85 da 13.146/2015). Noutro ponto, o artigo 1.767 do Código Civil, também alterado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, suprimiu as hipóteses antes previstas de aplicação da curatela às pessoas sem discernimento para atos da vida civil, às pessoas com deficiência mental e às pessoas sem completo desenvolvimento mental. Porquanto, a curatela ficou restrita às pessoas que se enquadrem na nova redação dos incisos do referido dispositivo legal, in verbis: “Art. 1.767. Estão sujeitos a curatela: I - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) II - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) III - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) IV - (Revogado); (Redação dada pela Lei nº 13.146, de 2015) V - os pródigos.”. Neste contexto, com a entrada em vigor do chamado “Estatuto da Pessoa com Deficiência” (Lei 13.146/2015), foi criado um sistema normativo inclusivo, que homenageia o princípio da dignidade da pessoa humana em diversos níveis. A novel legislação retira a pessoa com deficiência da categoria de incapaz, sugerindo o conceito de que ela não deva ser considerada mais tecnicamente incapaz, na medida em que a deficiência não afeta a sua plena capacidade. Dessa forma, o conceito de capacidade civil foi reconstruído e ampliado, com reflexos significativos no instituto da interdição e da curatela, uma vez que estabelece novo paradigma para o conceito de deficiência, consoante artigo 2º, in verbis: “Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.”. Atento a esta evolução do direito, doutrina abalizada, capitaneada pelo civilista NELSON ROSENVALD, define o alcance da aplicabilidade dessa nova definição ao caso concreto, lecionando que: “A incapacidade relativa será materializada alternativamente pelas técnicas da representação e assistência. Em outros termos, a pessoa com deficiência, que pelo Código Civil de 2002 eram consideradas absolutamente incapazes em uma terminologia reducionista, tornam-se relativamente incapazes, a partir da vigência da Lei 13.146/2015” (ROSENVALD, Nelson. A tomada de decisão apoiada – primeiras linhas sobre um novo modelo jurídico promocional da pessoa com deficiência. In: Revista IBDFAM: famílias e sucessões. Belo Horizonte, IBDFAM, 2015, v.10). Nessa toada, vale ressaltar que a interdição de uma pessoa para atos da vida civil é uma medida grave, que deve se cercar de todas as cautelas, devendo vir escorada num juízo pleno de certeza e segurança, sob pena de se retirar aquilo que há de mais valioso na vida de cada um, e de transformar um ser humano, que deveria ser livre, em um prisioneiro da sua própria vida. Portanto, com o advento da Lei nº 13.146/2015, pessoas com deficiência mental ou intelectual deixaram de ser consideradas absolutamente incapazes. Todavia, em situações excepcionais, a pessoa com deficiência mental ou intelectual poderá ser submetida à curatela, no seu interesse exclusivo e não de parentes ou terceiros. Essa curatela, ao contrário da interdição total anterior, deve ser de acordo com o artigo 84 do Estatuto da Pessoa com Deficiência, proporcional às necessidades e circunstâncias de cada caso. Tem natureza, portanto, de medida protetiva e não de interdição de exercício de direitos. Com esta nova mentalidade, a Lei veio efetivar o princípio da dignidade da pessoa humana, direcionando o olhar para o ser com limitação para seus negócios, de forma a visualizá-lo como sujeito de direitos, e não como objeto caracterizado como incapaz, cujo termo de cunho pejorativo que pode ser definido como “impossibilitado, inapto, inepto, inábil”. Atributos estes que dirigidos a uma pessoa, com o mínimo de discernimento, poderá ferir seu caráter, honra e afetar, negativamente, sua personalidade e autoestima. Com efeito, a interdição deve ser manejada com cautela, de modo a não privar de capacidade própria de usufruir das faculdades mentais e de capacidade de compreensão e expressão da vontade, tendo-se o cuidado para aferir com a maior precisão possível se, havendo incapacidade, esta é total ou parcial, pois este é o critério determinante para a interdição. Não havendo incapacidade, a questão se resolve com a simples nomeação de curador, preservando os direitos da pessoa quanto ao exercício de direitos e exteriorização de sua vontade na realização de atos que não envolva capacidade intelectiva de discernimento, como por exemplo, os atos de disposição de bens patrimoniais de grande monta. Partindo dessas primícias, a decretação da interdição impõe, obrigatoriamente, a demonstração da existência de uma das hipóteses previstas no referido art. 1.767 do Código Civil. In casu, o conjunto probatório produzido, especialmente o laudo pericial judicial, demonstra que NILDA MARIA DE CASTRO é portadora de Esquizofrenia Paranóide (CID F20), de caráter irreversível e permanente, apresentando limitações psíquicas que comprometem severamente seu discernimento para o exercício autônomo dos atos da vida civil. Ademais, os elementos constantes dos autos demonstram que BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO já exerce, de fato, os cuidados necessários à interditanda, comprovando sua idoneidade civil e criminal por meio das certidões negativas colacionadas (ID 10645122628). Dessa forma, embora a legislação vigente afaste a incapacidade absoluta da pessoa com deficiência, mostra-se necessária, no presente caso, a submissão da requerida ao regime de curatela, em caráter protetivo, observados os limites legais pertinentes. Assim, entendo que o conjunto probatório trazido aos autos é mais do que suficiente para demonstrar a incapacidade da interditanda para os atos da vida civil. Acontece que, a partir da entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência, o interditando não pode mais ser considerado absolutamente incapaz, mas sim relativamente incapaz, nos termos da nova redação do artigo 4º, inciso III e artigo 1.767, inciso I, ambos do Código Civil. Neste diapasão, a interditanda deve ser submetida ao regime de curatela, privilegiando, assim, o princípio da dignidade da pessoa humana, de forma a restringir direitos do interdito somente naquilo que for rigorosamente essencial. Logo, a curatela deve se restringir a atos de conteúdo patrimonial ou econômico, desaparecendo, portando, a figura da interdição completa e do curador com poderes ilimitados, cabendo ao Juiz estabelecer os seus limites e extensão, segundo o estado e o desenvolvimento mental do interdito, considerando suas características pessoais, com observância de suas potencialidades, habilidades, vontades e preferências, consoante disposição do art. 755, incisos I e II, do CPC. Com efeito, atento a essas peculiaridades, o pedido deve ser julgado procedente, para reconhecer a incapacidade civil da interditanda NILDA MARIA DE CASTRO, nomeando-lhe como curadora a parte requerente BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO, fixando a extensão da curatela na forma do art. 755, I, do CPC, restrita à prática de atos de conteúdo patrimonial e negocial, bem como ao gerenciamento de seu tratamento de saúde e sua representação civil. III – DISPOSITIVO Ante o exposto, RATIFICO a liminar concedida na decisão acostada ao ID 9651581770 e JULGO PROCEDENTE O PEDIDO INICIAL, com resolução do mérito, nos termos do art. 487, inc. I, do CPC; para decretar a interdição parcial de NILDA MARIA DE CASTRO, declarando-a relativamente incapaz de exercer pessoalmente os atos da vida civil, na forma do artigo 4º, inciso III e artigo 1.767, inciso I, c/c o artigo 1.775, todos do Código Civil; mantendo-se incólumes os seus demais direitos existenciais compatíveis com seu estado de saúde. Em consequência, NOMEIO a parte requerente BRASIMEIRE CRISTINA DE CASTRO para exercer o encargo de curadora de sua genitora NILDA MARIA DE CASTRO, que deverá representá-la nos atos que importem na prática de atos de conteúdo patrimonial e negocial, consistentes na administração de bens e valores, celebração de contratos, atuação junto à Previdência Social e quaisquer outros órgãos, podendo requerer e movimentar qualquer benefício (especialmente o Benefício de Prestação Continuada - BPC), além do gerenciamento de seu tratamento de saúde e de sua representação civil. A curadora deverá assinar o respectivo Termo de Compromisso no prazo de 05 (cinco) dias, para bem e fielmente cumprir o encargo, prestando contas de sua administração, na forma do artigo 1.774 do Código Civil, a qual será anual, conforme determina o art. 84, §4º, da Lei nº 13.146/2015. Sem custas, se a parte requerente estiver sob o pálio da justiça gratuita. EXPEÇAM-SE o mandado e o edital, para fins do art. 755, §3º, do CPC. O mandado deverá ser registrado em livro próprio, no Cartório de Registro Civil da sede da Comarca (art. 89 c/c art. 92, da Lei 6.015/73), competindo ao Oficial providenciar as devidas anotações ou comunicações (art. 106 da Lei 6.015/73). INTIME-SE a curadora para providenciar o registro da interdição, no prazo de oito dias, prestando o compromisso em seguida, no prazo de 05 (cinco) dias. CIENTIFIQUE-SE a curadora de que a alienação de bens da curatelada, caso haja, só poderá se dar mediante autorização judicial. Transitada em julgado, tome-se o compromisso e lavrem-se o termo de compromisso e interdição. Providenciado o que foi determinado, independente de nova conclusão, vista ao Ministério Público. Nada requerido arquivem-se com baixa no sistema. Publique-se. Registre-se. Intime-se. Uberlândia, data da assinatura eletrônica. MARCIO JOSE TRICOTTI Juiz de Direito 5ª Vara de Família e Sucessões da Comarca de Uberlândia